Impressionante a sensibilidade social de Miguel do Rosário. Faltam-me palavras (não precisam emprestar o dicionário, não) para descrever minha admiração pela qualidade de seus textos e sua acuidade crítica.
Ontem eu li a Folha e fiquei estupefato com a ingenuidade, falta de acuidade científica e ausência total de sensibilidade antropológica de Fabio Comparato, que falou em "400 mortos" da ditadura militar. Sei que não é o momento de criticar o professor Comparato. Presto apoio integral a ele neste caso da Folha, mas não posso me furtar a esta observação. Ora, esses 400 são apenas os mortos políticos oficiais, e os mais famosos. Dezenas de milhares foram mortos em todo país, fichados como delinquentes para evitar a conotação política, mas que, muitas vezes, não fizeram mais do que protestar contra um prefeito, um fazendeiro, um líder político qualquer. Isso é evidente, porque, se hoje, no Brasil, quando existem organizações de direitos humanos atuando, tanto no governo quanto na sociedade civil, imprensa livre, um Judiciário forte e independente, um Ministério Público, a polícia ainda mata milhares de pessoas por mês, imagina o que faziam nos anos de chumbo! Quantos trabalhadores rurais não foram mortos por capangas de fazendeiros, sem que nenhuma investigação fosse realizada, visto que a imprensa não repercutia e a sociedade se calava, com medo? Quer dizer que um trabalhador morto por um fazendeiro, em plena ditadura, não é também uma vítima da mesma? Essa contabilidade, portanto, é tremendamente preconceituosa e elitista. Como se apenas os garotos de classe média que morreram nas prisões do Doi-Codi devessem ser chorados pela opinião pública.
A esquerda, às vezes, é insuportavelmente ingênua; neste caso, é quase uma estupidez, que agride ainda mais a inteligência por vir do senhor vilmente atacado pela Folha de São Paulo e, por isso, imerso no centro da luta ideológica que ora se arma entre a direita, representada pela mídia e seus pitbulls, e a blogosfera.
Não, professor, não foram 400 mortos. Foram 400 mil mortos. Foram milhões de mortos, pois cada pessoa morta entre 1964 e 1984 era, de uma forma ou outra, uma vítima da violência da ditadura. Nem que fosse a violência singular, e mesmo assim importante, de morrer sabendo que seus filhos e netos estariam vulneráveis à sanha assassina dos militares e dos milhares de empresários, jornalistas e fazendeiros que os apoiavam.
# Escrito por Miguel do Rosário #
Um comentário:
Isso aí mesmo, companheiro. A ditadura aqui foi dura mesmo, duríssima, jamais saberemos os números corretos da chacina que ocorreu naquelas duas décadas.
Benza Deus! Salve Lula! Salve Dilma! Salve Brasil PT!
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