Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual
São Paulo – Formada por diversos partidos políticos, correntes de pensamento e
grupos estudantis, a passeata de estudantes, professores e funcionários da
Universidade de São Paulo (USP) na tarde desta quinta-feira (10) na capital
paulista unificou o discurso apenas em alguns pontos: o fim do convênio da USP
com a Secretaria de Segurança Pública, a não punição dos estudantes que ocuparam
a reitoria e a saída do reitor, João Grandino Rodas.
A passeata foi encabeçada pelos 73 estudantes removidos da Reitoria da USP na
madrugada da última terça-feira (8) e mantidos durante todo o dia em espera em
um ônibus e depois levados ao distrito policial. Os cerca de dois mil
manifestantes seguiam atrás e em coro: "Rodas, a culpa é sua. A aula hoje é na
rua". A passeata, que teve seu início da Faculdade de Direito da universidade,
no Largo São Francisco, centro de São Paulo, percorreu algumas ruas da região.
Munidos de cartazes com palavra de ordem, os estudantes pediam o fim da
repressão policial no campus da USP e reivindicavam a saída imediata da PM da
Cidade Universitária - o convênio entre as instituições foi firmado no mês de
setembro. Para a estudante de letras Debora Manzano, a maneira com que a polícia
agiu contra os alunos que ocuparam a reitoria desde a última semana chocou a
todos, inclusive aqueles que não concordavam com a decisão de ocupar o prédio.
Para ela, a ação foi brutal e deixou um clima de medo e insegurança no campus.
"Apesar de muitos estudantes não concordarem com a ocupação, aquilo tudo foi
muito impactante para todo mundo. Nós somos a favor de seguranças, mas sem
militarização da universidade. Queremos outras medidas que podem aumentar a
segurança sem que situações como essa ocorram novamente."
Já para Alexandre Soares Carneiro, professor do Departamento de História e
Geografia, é necessária uma nova política de segurança que priorize a
constituição de uma guarda universitária treinada para tratar dos problemas da
comunidade e evitar que esses conflitos se tornem sistemáticos se policiais que
não têm cultura de respeito à cidadania continuarem na universidade. "A cultura
da PM não é para tratar a cidadania com o respeito que merece. A PM é uma tropa
herdeira dos traços do autoritarismo militar da época da ditadura", destaca o
professor.
Carneiro critica a maneira como foi escolhido o reitor da USP que, de maneira
indireta, foi empossado pelo ex-governador José Serra (PSDB). Como é de praxe na
universidade, uma lista tríplice é enviada ao chefe do Poder Executivo após
votação em que têm o maior peso os professores de alta hierarquia, com proporção
quase insignificante de alunos e funcionários, além dos docentes mais novos.
Ainda assim, Serra contrariou a convenção informal com a instituição de
respeitar o nome que liderasse a lista tríplice – Rodas foi o segundo, em uma
nomeação que não ocorria desde os tempos de Paulo Maluf, em 1981.
"Ele não representava um nome mais forte, mas um nome mais de direita e
articulado com a doutrina política do governo, que é profundamente
antidemocrática e que trata os movimentos sociais com repressão", argumenta. A
escolha de Rodas se deu meses após a ação policial violenta na Cidade
Universitária contra um grupo de alunos e funcionários que realizava um
protesto. A operação, ordenada pela então reitora, Suely Vilela, não ocorria
desde o regime autoritário.
Para o professor de história, o que ocorreu na desocupação da reitoria não foi
uma violência gratuita. O episódio foi usado como um símbolo para acenar aos
estudantes e para todos os movimentos sociais que a polícia de São Paulo vai
adotar uma "linha de mão dura" e que isso vai ser aplicado tanto para moradores
de rua, sem-teto, camelôs e até mesmo nas greves.
Para Débora Manzano, pontos estruturais poderiam resolver o problema, que se
estende há tanto tempo, como melhor iluminação, a livre entrada de pessoas no
campus e, ainda, rever a questão do transporte público, como ônibus e metrô.
Segundo Carneiro, a reitoria tem prioridades diferentes das estabelecidas pela
comunidade universitária.
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