Sinal do recorde
Aprovação de Dilma é a negação do marquetismo como fator básico para o êxito na opinião pública
Na aprovação recordista de Dilma Rousseff captada pelo Datafolha, uma indicação subjacente tem mais significados, para a atualidade política e cultural brasileira, do que a inesperada e larga ultrapassagem sobre as aprovações a Lula e a Fernando Henrique, iguais ao fim do seu primeiro ano de governo com 18 e 17 pontos percentuais a menos do que sua sucessora:
- A aprovação de Dilma Rousseff é a negação do marquetismo como fator básico e decisivo para o êxito na opinião pública.
A conduta de Dilma Rousseff ficou aquém, em tudo, do mínimo recomendável pelo marketing político. Nada de artifícios para criar eventos e situações que levem a demoradas e comentadas aparições nos telejornais, com bis nas primeiras páginas do dia seguinte. Solenidades palacianas, sempre as limitadas àquelas que ficariam incompletas sem a presença presidencial.
Nas falas necessárias, os improvisos, apesar de sua insegurança já diminuída, mas ainda traiçoeira, ganham a preferência por se permitirem maior brevidade. Sempre sem as elaborações demagógicas. Substituídas, quando seria sua vez, por frases objetivas e com sua força produzida pela firmeza da elocução. Se não improvisadas, no papel as falas não saem do mesmo estilo.
Nada de angariar homenagens no exterior, à maneira de Fernando Henrique. E lá fazer programas turístico-culturais com um séquito de repórteres e câmeras previamente coordenados. Nem provocar encontros com ilustres, à maneira de Lula, para a demonstração de seus novos patamares também pelos continentes afora.
Vida em família é em família, descanso é descanso, o instante que daí chega às câmeras não é elaborado nem proibido- é só um trabalho de outros. No gestual, no vestir, nos aparecimentos comuns, não mais do que a elegância discreta, formal, também comum. Nada, nunca, nessa conduta, para ser, mais do que apenas visto, captado como deseje a pretensa criação marqueteira.
Haverá muitas explicações, convergentes ou não, para os 59% de aprovação recebidos por Dilma. Na aprovação vitoriosa que lhe é dada nos segmentos de renda e escolaridade mais altos, é provável, porém, que seja imprudente não considerar a ausência do marquetismo como fator, consciente ou não, da aprovação manifestada.
A par de concordâncias e discordâncias com atos de governante, aglomerou-se um senhor cansaço com o marquetismo que a todos perseguiu por anos. Diário, ininterrupto, repetitivo. Massacrante mesmo, e nisso, não tenhamos esta dúvida, intencional. A ver-nos todos como idiotas manipuláveis.
Graham Greene deu a um livro excelente o título de "O Fator Humano". É isso, e não o seu contrário -o marquetismo da artificialidade. Para não dizer, sem deixar de dizer, da falsificação.
Um comentário:
E nos comprazemos!
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