Desde a noite de 04 de novembro, está muito presente na minha memória um trecho de Henrique V, de Shakespeare, em que o rei discursa sobre o dia de São Crispim. Sabendo que eu não era a pessoa mais indicada para traduzi-lo, fiz o pedido aos dois melhores tradutores literários da internet brasileira e eles foram generosos. A jóia que você lerá agora, portanto, não tem qualquer mérito meu, a não ser o de ter tido a idéia. A tradução é um presente à língua portuguesa dado por Nelson Moraes e Cynthia Feitosa.
Idelber Avelar
O Dia de São Crispim (tradução: Nelson Moraes e Cynthia Feitosa)
Quem é que deseja isso?
Meu primo Westmoreland? Não, meu caro primo;
Se estamos destinados a morrer, já somos o máximo
Que nosso país pode perder; e, se vivermos,
Quanto menos formos, maior a honra que partilharemos.
Deus! Te imploro, não queiras nenhum homem mais,
Por Júpiter! Não sou avarento com o ouro,
Nem me importo que vivam às minhas custas;
Não me incomoda que outros vistam minhas roupas:
Tais coisas de aparência não estão entre meus valores;
Mas se for pecado cobiçar a honra,
Sou a alma mais pecadora de todas.
Não, tenha fé, primo, não queiras mais nenhum homem da Inglaterra!
Pelo amor de Deus! Eu não perderia uma honra tão grande
Ainda que um só homem fosse dividi-la comigo,
Porque espero o melhor. Não, não peças mais nenhum homem! Melhor proclamar,
Westmoreland, a todos os meus soldados,
Que àquele que não tiver estômago para lutar,
Deixem-no ir: nós lhe daremos um passaporte
E poremos uns escudos para viagem, em sua bolsa;
Jamais morreríamos na companhia de um homem
Que teme morrer como nosso companheiro.
Este dia é o da festa de São Crispim;
Aquele que sobreviver a esse dia, e voltar são e salvo para casa
Ficará na ponta dos pés quando esta data for mencionada,
Ele crescerá ainda mais, diante do nome de São Crispim.
Aquele que sobreviver a esse dia e chegar à velhice,
Em toda véspera deste dia, comemorará com os vizinhos
E lhes dirá: "Amanhã é São Crispim".
Então arregaçará as mangas e mostrará as cicatrizes,
E dirá: "Estas feridas eu ganhei no dia de São Crispim."
Os velhos se esquecem; tudo mesmo acaba esquecido
Mas ele se lembrará, com orgulho
Das proezas que realizou naquele dia. E então nossos nomes,
Tão familiares em sua boca quanto os de seus parentes –
O rei Harry, Bedford e Exeter,
Warwick e Talbot, Salisbury e Gloucester –
Serão, nos copos transbordantes, vivamente lembrados.
Esta história o bom homem ensinará ao seu filho;
E nenhuma festa de São Crispim acontecerá
Desde este dia até o fim do mundo
Sem que nela sejamos lembrados –
Nós poucos, nós poucos e felizes, nós, bando de irmãos;
Pois quem hoje derramar seu sangue comigo,
Será meu irmão; seja ele o mais vil que for,
Este dia enobrecerá sua condição
E os cavalheiros ingleses que agora dormem
Se acharão amaldiçoados por não estarem aqui,
E sentirão sua honra decair, ao ouvir um outro contar
Que combateu conosco no dia de São Crispim.
PS: Nelson e Cynthia, de novo, obrigado.
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